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As instituições

Como melhorei minha prática educativa com bebês e crianças?

Lembro como se fosse ontem minha chegada na Educação Infantil. Havia uma expectativa gigantesca em assumir a turma de berçário II com dezoito bebês e a parceira de turma, com a qual eu desenvolveria o trabalho. Em minha cabeça passava receios, vontades, medos, curiosidades e desafios, mas havia muita vontade de vivenciar essa nova experiência.

Outras reflexões passavam pela minha cabeça: O que fazer? Como fazer? Como as famílias vão me receber? Como alinhar o Projeto Político Pedagógico às vivências dos bebês? Será que eles vão chorar por muito tempo? São muitos bebês por educador, como dar conta de tantas demandas individuais e coletivas? E foi assim, com medos e receios que iniciei essa jornada cheia de encantos e desafios.

Assim que cheguei recebi um semanário, orientações gerais sobre bebês e a famosa ‘linha do tempo’ ou ‘rotina’. Claro, toda instituição tem um modelo de funcionamento, organização dos espaços, horários rígidos, locais destinados para realização das tarefas e/ou vivências:

“Uma instituição total pode ser definida como um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida fechada e formalmente administrada.” (GOFFMAN, 2008. p.p 11).

O olhar de Goffman nos ajuda a compreender o funcionamento de diferentes instituições, no caso dos CEIs sobre a nossa própria prática, pois quando chegamos às unidades já existem duas coisas que estão, de certo modo, engessadas. Primeiro uma espécie de “modelo de funcionamento” e segundo a concepção de infância. 

Quanto à esse modelo de funcionamento citado, quando chegam às unidades educacionais já existem protocolos fixos e determinados, por exemplo, horário do almoço, uso de cadeirões para alimentação dos bebês, o mobiliário que não corresponde às suas necessidades, excesso de registros fotográficos, pouca exploração dos espaços e materiais das unidades, pouco tempo de reflexão sobre a ação docente, excesso de atividades dirigidas, excesso de brinquedos espalhados nos espaços de convivência dos bebês e das crianças. Algumas unidades educacionais são pouco democráticas impossibilitando o desenvolvimento do trabalho; encontramos também precariedade na formação dos agentes de apoio (já parou pra pensar que esses agentes cumprem tarefa educativa?); mecanização na linha do cuidado; horário da soneca dos bebês e das crianças (o que fazer quando um bebê ou uma criança não quer dormir?); a não circulação do Berçário I em outros espaços. 

Acredito ser de fundamental importância circularmos em outras áreas do conhecimento pois acabamos nos limitando somente com as abordagens da psicologia e da pedagogia. É necessário beber em outras fontes, mesclar outras possibilidades de conhecimento como forma de complementar a intencionalidade pedagógica e, ao mesmo tempo, trabalhar a interdisciplinaridade. 

Quanto ao segundo ponto que diz respeito às concepções de infância, vejo que os bebês e crianças não são protagonistas das propostas e brincadeiras, e, assim como os próprios educadores, também ficam sob uma ordem “formalmente administrada” (GOFFMAN, 2008). Se observarmos que bebês e crianças trocam valores e conhecimentos, brincam juntas, e, muitas vezes, quando estão no meio de um processo incrível são engolidas pela rigidez da estrutura, logo percebemos um rompimento que pode ser fatal no desenvolvimento da ação educativa. Por exemplo, estabelecidos os horários e a necessidade de cumpri-los, muda-se a dinâmica e então  é preciso reorganizar o espaço novamente e isso poda o movimento. Bebês e crianças possuem ritmo mais lento pois eles apreciam tudo, e estão conhecendo as coisas do mundo, os pequenos detalhes e movimentos que muitos adultos já não enxergam mais. Precisam de um tempo maior para contemplar e conhecer as coisas. Aí mora um dos segredos da proposta educativa que é justamente gerar autonomia de maneira que o educador possa observar e acompanhar o processo de aprendizagem através dessas vivências tão significativas para os pequenos.

Lembro também que me disseram para realizar diversos registros (fotográficos, vídeos e escritos), pensar num projeto com a turma e quais seriam as minhas intenções naquele período de tempo que estaria com elas. Fui percebendo que estava fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, como se tivesse me transformado num “tarefeiro” e que os bebês não estavam saboreando as propostas, e isso gerava consequências terríveis para mim como, por exemplo, ficar muito tempo em pé, não esperar o momento dos bebês manipularem o material, falar excessivamente e preencher a rotina com propostas e, que muitas vezes não apresentavam um diálogo mínimo entre elas,  dirigir propostas e realizar registros ao mesmo tempo. Quando chegou o final do ano tinha muito material,  porém eles não conversam entre si e senti muita dificuldade em iniciar os relatórios descritivos, bem como a produção do portfólio.

Passado um tempo, fui refletindo sobre a minha prática pedagógica para tentar entender os fundamentos da minha ação e as oportunidades para melhorá-las cada vez mais e, por incrível que pareça, não encontrei apenas nos livros sobre infância, mas circulando em diferentes campos do conhecimento, como na Arquitetura, Designer, Educativos de Museus, vivências em Cozinhas Experimentais, Centros Culturais, Fábricas de Cultura na cidade de São Paulo,  Cursos de curta duração e, sobretudo, no campo das Artes.

A partir dessas novas leituras e vivências fui entendendo que não preciso dirigir as propostas o tempo todo, afinal os bebês e crianças possuem potencialidades e linguagens que precisam ser mais bem exploradas. Para tanto, é preciso respeitar o seu ritmo e suas escolhas ao longo das propostas, pois vão brincar, pesquisar e testar as suas hipóteses. É nessa relação e mediação que encontramos a beleza das miudezas de bebês e crianças em espaços coletivos.

Obtive muitos ganhos com essa prática, pois passei a elaborar melhor os projetos, as vivências, a minha relação com os bebês, entender melhor cada particularidade, sentir menos dores por ficar tanto tempo em pé. Percebi que precisava falar bem menos, até mesmo para a resolução de conflitos entre os bebês (claro que não permitia chegar a situações extremas), bem como o percurso da turma ao longo das suas vivências. É muito importante a figura do professor pesquisador, pois deste modo conseguimos dialogar com diferentes áreas do conhecimento e assim, apresentarmos possibilidades de maior amplitude para bebês, crianças e professores.

REFERÊNCIAS:

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 2008.

Série: O começo da vida. Direção Estela Renner

Por Thiago Pacheco

Sociólogo e Pedagogo;
Reflexões e práticas sobre o cuidado educativo de bebês e crianças em espaços coletivos.

Uma resposta em “Como melhorei minha prática educativa com bebês e crianças?”

Oi Thiago, sua trajetória, descobertas e interações no mundo infantil me transportaram até lá. Sua narrativa poemizada de Manoel de Barros aguçou minha sensibilidade para iniciar minha aprendizagem nesse mundo mágico e potente em amor sincero e verdadeiro.

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