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Liberdade para os bebês: desafios na sala do berçário

Liberdade para os bebês: desafios na sala do berçário

Uma criança que seguisse seu ritmo e seus desejos seriam capaz de aprender tudo – sentar, colocar-se em pé, caminhar, falar, refletir, etc. Melhor que aquela que estivesse diretamente influenciada para chegar aos diferentes graus de desenvolvimento que os adultos consideram adequados ao momento em que vivem. (Judit Falk)

Conviver com os bebês e as crianças requer ação, reflexão e ação (FREIRE, 2008). À luz dessa concepção gostaria de conversar sobre o uso do bebê conforto, almofadas ou qualquer apoio para os bebês que frequentam os berçários.

Realizei algumas pesquisas nos manuais de instrução das marcas mais comercializadas de Bebê Conforto e todos eles apresentam as mesmas orientações: usar o equipamento apenas dentro dos veículos. Para complementar minha pesquisa sobre o tema consultei, também, professores e diretores de Centro de Educação Infantil (CEI) para saber se existe alguma normativa ou legislação sobre a compra desses equipamentos. Dessa breve conversa, comentaram que não há nada que regulamente essa compra e, por ser uma demanda das professoras e professores para dinamizar o atendimento e bem estar dos bebês, realizam a compra. Achei interessante destacar que ao conversar com as pessoas sobre o tema, todas me disseram terem lido algo a respeito e enxergam alguns problemas no uso desses equipamentos.

É importante destacarmos que os bebês e as crianças pequenas (zero aos três anos de idade) ficavam em creches, instituição essa coordenada pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), numa perspectiva de cuidado com as crianças muito pequenas. Em 2003 na cidade de São Paulo, ocorre a transição de secretarias, passando a ser responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação (SME). Com isso, novos valores e concepções precisaram ser desconstruídos, porém presenciamos alguns resquícios dessa concepção, não apenas nos berçários, mas em outras situações, que requer outro texto para conversarmos a respeito.

Ao entrarmos na sala de Berçário I é muito comum encontrarmos esses objetos, tendo como principais justificativas: “O apoio é para os bebês que não se sentam”; “Sentem-se seguros por ficarem encaixados nesses equipamentos”; “Ao dormirem, por terem a sensação de queda constantemente, não se assustam com tanta frequência” e “São muitos bebês, assim facilita a dinâmica dos professores”.

Também tenho percebido que os bebês estão sendo matriculados cada vez mais cedo, já convivi com um bebê de três meses e sei que requer alguns cuidados específicos. Vale à pena comentar que é garantido o direito de frequentar creches e CEIs, mas também penso ser importante rever as políticas para que as famílias possam passar mais tempo com os seus filhos e filhas ao nascer e só mais tarde matricularem seus bebês. Até que esse direito seja conquistado, enquanto educadores da infância é preciso garantir a qualidade de permanência dos bebês e crianças em espaços coletivos.

Tenho pesquisado as teorias sobre o desenvolvimento e aprendizagem dos bebês e algumas bibliografias nos dizem sobre corporeidade e o respeito aos movimentos livres. (DELEUZE, 2011); (FALK, 2011); (FOCHI,2015). Além desses teóricos clássicos, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Americana de Pediatria não recomendam o uso do Bebê Conforto como berços, cadeirinhas de alimentação ou ainda, que as crianças permaneçam nesse equipamento por mais de uma hora. Justificam que a curvatura desses objetos atrapalha o desenvolvimento dos bebês e os impossibilitam de realizar os movimentos corporais necessários para as suas aprendizagens e bem estar.

Nesse sentido, precisamos criar estratégias que atendam as necessidades de bebês em espaços coletivos. Sei que precisamos lidar com muitas demandas, sejam elas individuais e/ou coletivas. Afinal, são muitos bebês para poucos educadores e, justamente por serem muitos precisamos garantir confiança para que possam sentir-se emocionalmente seguros para brincar e conviver com os demais, além é claro, de garantir suas aprendizagens.

Acredito que os bebês e as crianças precisam pesquisar e brincar no chão, pois ali vamos garantir que se expressem livremente e realizem os movimentos que o seu corpo permita fazer.

Mas como permitir o livre movimento?

Quando convivo com os bebês do Berçário I gosto de ficar sentado próximo a eles, garantindo suas necessidades básicas como calor, frio, fome, sede e troca de fraldas. Não costumo falar muito enquanto estão pesquisando e brincando e intervenho o mínimo possível nas suas descobertas e conflitos. Organizo a sala de referência com brinquedos e materiais que sejam interessantes e seguros, para que não precise me preocupar com o que vão mexer.

Com os bebês que não ficam sentados, costumo os deixar deitados de barriga para cima nos tatames ou esteiras, mantendo o contato visual na maior parte do tempo com eles, garantindo o alcance de objetos leves e que possam brincar sem risco algum, como um lenço, uma bola vazada que possa segurar firmemente, colher de pau, argolas de cortinas, mordedores, forminhas metálicas, etc. Para os bebês que já conseguem engatinhar ou caminhar, disponibilizamos outros brinquedos e materiais do seu interesse e um pouco mais distante dos bebês que ficam deitados.

Quando os bebês movimentam os olhos, os dedos, o pescoço, pernas e os seus braços estão pesquisando e brincando. Quando conseguem agarrar os objetos vão realizar suas investigações de acordo com os seus interesses e não vão brincar de acordo com as nossas intenções, vão atribuir o seu sentido para aquele objeto.

Dessa forma, acredito que os bebês possam tornar-se livres para as suas escolhas e movimentos e nós, enquanto educadores, vamos contribuir com esse processo, além de nos sentimos menos cansados e frustrados com as propostas que elaboramos. Quando garantimos alimentação, hidratação, que possam realizar o descanso e que brinquem, percebemos que vão sentindo-se acolhidos e importantes, valorizando sua auto estima e os seus desejos.

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. São Paulo: Ed. 34, 1997.

FALK, Judit. Educar os três primeiros anos: a experiência de Lóczy. Araraquara, SP: Junqueira & Marin, 2011.

FOCHI, Paulo. Afinal, o que os bebês fazem no berçário?: comunicação, autonomia e saber-fazer de bebês em um contexto de vida coletiva. Porto Alegre: Penso, 2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.





Por Thiago Pacheco

Sociólogo e Pedagogo;
Reflexões e práticas sobre o cuidado educativo de bebês e crianças em espaços coletivos.

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